Domingo, 23 de Outubro de 2005

Ana Padrão








Não a esquece quem tenha visto a sua figura leve e esguia, a cara talhada na expressão dos grandes olhos azuis, o remate da boca, desenhada em voz.
Num percurso que vale a pena conhecer, Ana Padrão afirma-se como actriz em O Milagre Segundo Salomé.




 



Actriz, casada, mãe de duas filhas, filha de militar, Ana Padrão pertence à geração de viragem entre dois tempos da história portuguesa, vividos em itinerâncias de família. Depois de trabalhos variados em cinema, no início da carreira, o seu nome tem ganho prestígio pelos papéis que ao longo dos anos 90 e até hoje tem desempenhado por escolha e convite dos grandes realizadores portugueses. Fernando Lopes, Jorge Silva Melo, José Fonseca e Costa, António-Pedro Vasconcelos consagram o talento de Ana Padrão. Em fase plena de carreira, teve agora uma participação em O Milagre Segundo Salomé, no primeiro filme de Mário Barroso.

Quer contar a sua história?

Nasci em Lisboa em 1967, o meu pai é militar, somos duas irmãs, andávamos um bocado de um lado para o outro. Aos nove meses fui para Angola, onde vivi até aos seis anos. Esse tempo que passei em Luanda marcou-me imenso. Em 1973 voltei de férias. Depois, começaram os problemas. Fomos para Trás-os-Montes, para uma casa que os meus pais compraram. Uma experiência traumatizante para mim. Não percebia o que as pessoas diziam, estranhei o clima, tenho a imagem de tudo cinzento e esverdeado. Posteriormente, viemos para uma base aérea, mudei várias vezes de escola, não tive amigos de infância. Fui a consequência de uma vida sem raízes. Nunca me adaptei até hoje. Tinha oito, nove anos, vivíamos em Alenquer, e os meus pais perguntaram-me se queria ir para um colégio interno. Quis e passei sete anos no Instituto de Odivelas. Tive professores fantásticos, uma boa formação, cultura geral. Quando entrei para a Faculdade, em Antropologia, a maturidade das raparigas da minha idade era menor do que a minha. Achava limitada a maneira como elas apresentavam as ideias. Fiquei desiludida com o curso na Universidade Nova, considerado um dos melhores na altura. Não fazia ideia do futuro, quis fazer pintura ou investigação, escolhi Antropologia.

Lembra-se do 25 de Abril?
A base militar era uma coisa estranha, ninguém me explicava nada, parecia que o mundo estava a desabar. Como fui para um colégio interno que era uma realidade à parte, uma redoma onde não podíamos ver televisão, passávamos ao lado dos acontecimentos.

Como se tornou actriz?

Tive sempre teatro no colégio, havia aulas desde os nove anos. Era uma das disciplinas de que eu mais gostava. Quando saí, senti falta daquelas aulas. Fui fazer um workshop sobre poetas açorianos na Casa dos Açores. Li no jornal sobre esse workshop, andava à procura do teatro como complemento pessoal. Entrei na Faculdade nesse ano de 1984-85, entretanto encontrei por acaso o grupo do workshop no Bairro Alto. Iam inscrever-se no Conservatório, resolvi ir com eles, fui fazer o teste, fiquei. Era uma prova de voz, um monólogo, uma prova de movimento de corpo, tudo muito simples. Nessa altura, não havia muitos candidatos, ninguém pensava em ser actor, pensava-se na euforia de ser modelo. Comecei o Conservatório e a Faculdade ao mesmo tempo, desisti da Faculdade.



Ana Padrão tem sabido gerir a sua imagem e brilha com luz própria no panorama artístico nacional.

Em O Milagre segundo Salomé.

Na série Só Gosto de Ti
Os seus pais aceitaram a decisão?
A família reagiu mal. Na altura, ter uma filha actriz, para um pai militar… Saí de casa aos 17 anos. Hoje estão mais resignados, mas preocupam-se imenso comigo. Tenho duas filhas, de cinco e dois anos. Para uma mãe, é complicado conseguir manter o casamento, com esta profissão, o meio também não ajuda. Levei a pequenina com um mês para as filmagens de Os Imortais. Quando vou para fora não posso fazer novelas, são oito meses sem ver a família, eu com duas crianças não posso perder um ano da vida delas. Não tenho os pais perto, estão em Alenquer, nem todos os filmes têm dinheiro para alugar uma casa, levei a mais velha um mês para os Açores, foi uma experiência difícil. É preciso fazer muitas escolhas, há coisas que não posso fazer, projectos que não posso aceitar, o ganho não compensa a despesa de ter alguém a tomar conta.

Foi importante ter feito um curso académico?
Durante anos eu disse que não, e agora, ao fim de 20 anos de carreira, acho que sim. Gostei muito do primeiro ano, é extraordinário, o trabalho criativo, a improvisação, a procura de coisas novas, de conhecimentos. Numa escola normal os alunos têm a mesma idade, no Conservatório o curso tinha um grupo de pessoas interessantes e muito diferentes umas das outras. A maneira como se chega a um resultado na fase seguinte é muito arcaica, muito antiga. O programa não tinha um método, havia vários professores, cada um fazia o seu trabalho. Nas aulas teóricas, não havia coordenação e, nas práticas, tudo acontecia conforme o professor. Tínhamos dois professores de interpretação, um às segundas, quartas e sextas e outro às terças e quintas, cada um trabalhava à sua maneira. Para fazermos a encenação de uma peça, tínhamos várias marcações diferentes para a mesma cena, reclamámos. Começámos 35 no curso, saímos 12, quase todos trabalham em teatro.

Como sobreviveu durante o curso, sem apoios?
Durante anos foi complicado. Quando entrei no Conservatório fui fazer televisão e comecei a trabalhar em pequenos papéis no cinema. Já vivia sozinha, fiz algumas coisas como modelo, nunca nada de significativo. Fui modelo de publicidade e fiz dois desfiles, um com a Ana Salazar, outro com a Manelinha Gonçalves. Depois, fiz um casting e ofereceram-me um papel para uma telenovela. Nessa altura, toda a gente com quem eu falei me disse que fazer televisão era acabar com a carreira, que um actor que o fizesse deixaria de o ser, nunca iria entrar no teatro. Várias pessoas me avisaram de que não voltaria a fa-zer nada. O João Lourenço e pessoas da Comuna, da Cornucópia. Mas aceitei o papel, numa novela chamada Passerelle. Fazia o papel de uma miúda que tinha o sonho de ser modelo. Era uma história de família de classe média-alta, os pais não queriam deixá-la ir, ela consegue ser modelo numa altura em que aquela carreira não existia, e apaixona-se por um homem mais ve-lho que é dono de uma fábrica de roupa. Acabei a novela, foi uma boa experiência para um actor que estava a sair do Conservatório. Além de a história ter despertado um sonho em algumas miúdas, era uma novela substancial, que mudou a maneira de fazer televisão. Trabalhei com a Carmen Dolores, com o Toni de Matos, com a Florbela Queiroz. Mas não gostei de trabalhar em televisão, pensei até em desistir de ser actriz. Era muito violento, tinha de ir de comboio para Sintra, levantava-me às cinco horas da manhã e tomava táxis para o estúdio, metade do ordenado ficava nos táxis. Foi de tal maneira que fiquei sete anos sem fazer televisão.

Mas continuou a fazer cinema.
É verdade que vivia cá e que, por fazer quase só cinema, desapareci durante sete anos. Nunca me dei muito com o meio, sempre tive a minha vida privada separada da vida profissional. Era falada como uma modelo que passou a ser actriz. Fiquei colada a essa imagem. As pessoas não conheciam o meu trabalho. Ainda há quem ache que passei a ser actriz de um dia para o outro. Irritava-me a falta de cuidado e de respeito dos jornalistas. Hoje, já não me incomodo com o que dizem.

É uma profissão difícil?
A vida e o meio fazem uma triagem. É preciso ter uma capacidade enorme, um sexto sentido, para uma pessoa conseguir aguentar-se nesta profissão. É um meio complicado, cada vez há mais concorrência. É essencial sabermos aguentar as pressões, escolher os papéis.

E há uma enorme instabilidade.
Temos imenso dinheiro e no dia seguinte nem um tostão. Tenho colegas que estão há um ano sem trabalhar. Sei de miúdos que começaram a fazer novelas há quatro, cinco anos, e que, agora, sentem que lhes falta técnica, que aquilo é pouco como trabalho de actor, e vão para Londres ou para os Estados Unidos fazer workshops.
Hoje, é giríssimo ter os filhos a representar. Quando trabalho com crianças, aconselho os pais a que elas tenham acompa-nhamento psicológico. Trabalham horas, são adoradas ou odiadas, são centros de atenção.
Mesmo a nível de teatro, vê-se que é fácil montar uma peça, juntam-se três ou quatro jovens actores, conseguem o dinheiro, é óptimo fazerem teatro. Mas depois não é assim.

A televisão tem hoje mais prestígio?
Deu uma grande volta. Todos os actores, tirando talvez o Luis Miguel Cintra, já passaram pela televisão.

Mas os textos não ajudam.
Não temos bons autores. Passo mais tempo a corrigir textos do que a decorá-los.

Todas essas razões explicam que tenha feito mais cinema do que televisão?
Já tinha começado com pequenos papéis no cinema, quando fiz um casting para um filme inglês. O filme 1871 era uma espécie de documentário, uma história ficcionada sobre a Comuna de Paris, o casting foi feito aqui. Fiz o papel principal, era uma actriz de teatro, tive a oportunidade de traba-lhar com actores extraordinários. Foi o ponto de viragem da minha carreira. Através dele passei a fazer outros trabalhos com realizadores que me contactaram. Fazia dois, três filmes por ano, umas filmagens cá, outras fora. Voltei à televisão quando me ofereceram um papel na série Ballet Rose que apostou a sério na qualidade, embora fosse polémica. A novela é uma indústria, mas nesta série o realizador era o Leonel Vieira, o texto era do Moita Flores, uma boa equipa, foi um projecto que ficou por ali.

Há grandes diferenças entre cinema e televisão?
Em televisão, temos um guião, um esboço, um perfil das personagens em meia dúzia de linhas, não sei o que vai acontecer, fico a navegar. No cinema, têm princípio, meio e fim, o argumento tem a personagem definida.

Quer falar dos realizadores que conheceu?

Gosto imenso de trabalhar com o José Fonseca e Costa, tem bom gosto, é fantástico para dirigir actores, dirige sem quase dizer nada, é interessante e agradável, consegue criar uma família quando faz um filme. Com o Fernando Lopes é também muito agradável trabalhar. É muito sensível, muito querido, estimula os actores. O António-Pedro Vasconcelos é muito nervoso, vejo-o quase como um encenador de teatro, pede coisas tão específicas, como se as pedisse a um actor em cena, dá imensa importância à maneira como mexemos nas coisas, usa os objectos como elementos de filmagem.

A popularidade?
Para mim nunca teve importância, gosto que as pessoas ve-nham ter comigo e gostem do papel.

Gostou de fazer uma personagem em O Milagre Segundo Salomé?
Foi agradabilíssimo conhecer o Mário [Barroso], uma pessoa com um grande talento, uma sensibilidade artística imensa. Trabalhar com um director de fotografia é muito bom, aprende--se muito, aprende-se a apreciar a sensibilidade para a luz. A beleza no cinema é a luz, é a maneira como incide no rosto, no decor. A sua mudança interfere no trabalho dos actores. Os actores brasileiros sabem representar para a luz. O Mário tem essa sensibilidade quase feminina que muito poucos homens têm, é muito civilizado, é óptimo a dirigir actores, é muito equilibrado a nível da representação. Foi também divertido trabalhar com actrizes que eu não conhecia, era um grupo engraçado, com uma energia, uma química que funcionou.

É verdade que os actores estão em crise?
Estamos a atravessar uma fase complicada no meio artístico, no teatro, talvez no cinema. Espero que melhores tempos se anunciem, que as coisas tenham uma evolução diferente. A crise
existe, é mais de espírito, de ideais, de criatividade, de direcção. Ninguém sabe para onde se vai. Há pouca coisa nova e inte-ressante, não estamos só com um problema de dinheiro, a crise é de identificação. Mas acredito sempre nas novas gerações, te-nho trabalhado com realizadores novos e há boas cabeças.


 


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