Sábado, 10 de Setembro de 2005

Sofia Aparicio

Consumi drogas


Sofia Aparício
Sofia Aparício

“Não tive quaisquer problemas com drogas! Consumi-as e é só isso. A maioria das pessoas da minha idade fizeram-no. A única diferença é que eu não o escondo”.

Tem um percurso profissional na moda invejável, mas mesmo assim Sofia Aparício diz que não se considera uma mulher bonita. Entrou no mundo da moda aos 13 anos e isso obrigou-a a crescer muito depressa. Sempre envolta numa áurea misteriosa, a manequim confidencia algumas intimidades, nomeadamente que já consumiu drogas.

- Diz que não se acha uma mulher bonita

- É verdade. A beleza é uma coisa muito relativa e depende dos olhos de quem a vê. É muito mais que a aparência, por isso acho que se me analisar num todo, vivo bem comigo e preocupo-me em ser uma boa pessoa. Agora em termos físicos, a maioria das minhas colegas manequins são muito mais bonitas que eu.

- Mas é considerada uma das melhores manequins portuguesas.

- A moda, para mim, é uma profissão como outra qualquer. Não me acho realmente bonita, mas gosto muito que me dêem personagens diferentes para eu brincar com elas. Quanto mais feia me põem mais bonita me sinto.

- Então ser manequim não era um sonho?

- Não. Entrei no mundo da moda porque a minha mãe era cliente do cabeleireiro e estilista José Carlos e, quando tinha 13 anos, fui lá cortar o cabelo e ele quis-me fotografar. Comecei por fazer trabalhos como modelo fotográfico, até que, aos 15, tirei o curso de manequim e comecei a desfilar. No início, o mundo da moda parecia-me muito vazio, mas depois fiz grandes amigos e passei a vê-lo com outros olhos.

- Muda muitas vezes de ‘look’.

- Preciso dessas mudanças. Já tive o cabelo de todas as formas possíveis, mas agora estou mais calma.

- Gosta de ver uma Sofia diferente ao espelho?

- Eu não me olho muitas vezes ao espelho. Quando era manequim mudava muitas vezes de visual porque o meu trabalho se tornava mais interessante assim. São as mudanças que me dão prazer.

- Rapar o cabelo foi uma das suas maiores extravagâncias?

- Adorei rapar o cabelo e, ao contrário do que dizem, não foi preciso coragem. Foi a primeira vez na minha vida que olhei para o espelho sem maquilhagem e achei que estava engraçada. Nessa altura, só me apetecia usar vestidos, saias e andar com estilo de menina.

- O que acha que a fez vingar na moda e ser considerada uma das melhores?

- O facto de não me achar muito bonita, o que me obrigava a trabalhar mais, e os princípios que os meus pais e as minhas avós me transmitiram. São bases muito fortes que me permitiram aguentar e saber viver no mundo da moda.

- Os seus pais aceitaram bem a entrada na moda?

- Não. Eles queriam outro futuro para mim, até porque era boa aluna. Lamento tê-los desiludido, talvez hoje já tenham aceite as minhas escolhas.

- Diz que o seu pai continua a ralhar-lhe por causa dos ‘piercings’...

- Eu adoro o meu pai, ele é o homem da minha vida. Ele continua a tratar-me como quando era pequena.

- É a ele que recorre quando tem um problema?

- Não. Eu resolvo tudo sozinha, não peço conselhos e só vou ter com ele quando já está tudo resolvido. Ele é, sem dúvida, o meu melhor colo. Os meus pais são tudo para mim.

- Era uma jovem irreverente?

- Nunca fui. Era muito sossegada, tranquila e sempre cumpri as regras dos meus pais enquanto vivi com eles, até aos 19 anos. A partir do momento em que percebi que já não conseguia cumprir as suas regras fui--me embora. Mas nunca fui irreverente, nem nunca senti necessidade de me afirmar.

- Numa altura da sua vida teve um problema com drogas

- Não tive quaisquer problemas com drogas! Consumi-as e é só isso. A maioria das pessoas da minha idade fizeram-no. A única diferença é que eu não o escondo.

- Chegou a frequentar o curso de Gestão

- É verdade. Entrei na Universidade Católica aos 17 anos, mas continuei a trabalhar como manequim. Nunca acabei o curso e desde o início que sempre soube que não ia aguentar aquilo muito tempo. Fui para a faculdade pelos meus pais. Pelo menos tentei...

- Começar a trabalhar cedo obrigou-a a crescer muito depressa.

- Eu quis ser independente muito cedo, logo tive de trabalhar muito cedo. E tive de crescer rapidamente ou não me safava no mundo da moda. Não tive adolescência, mas também não me fez falta.

- Porquê essa necessidade de ser independente tão cedo?

- Eu tenho de ser assim. A mim ninguém me paga nada, nem me dão nada. Eu gosto muito mais da minha casa porque sou eu que a estou a pagar. Desta forma as coisas têm mais valor para mim. Tudo tem de ser construído por mim e tenho de ser livre e fazer o que quero e quando quero.

- Por isso é que nunca se casou?

- Nem nunca o vou fazer! Assinar um papel perante a sociedade não me diz nada. Se eu estiver com alguém de quem gosto muito, estarei casada com essa pessoa em sentimentos, nada de contratos.

- Está apaixonada?

- Muito e isso nota-se quando se olha para mim.

- Pretende ser mãe?

- Quero muito ter filhos, mas não sei se quero pôr mais uma criança neste Mundo, pois há tantas para adoptar. Ter um filho é egoísmo. Por isso, quando tiver a minha vida organizada, também quero adoptar duas ou três crianças. Ou talvez até só adoptar. Só ainda não sou mãe porque a minha vida económica é muito instável. E, depois, como sou muito independente e não quero depender de ninguém, as coisas ficam mais difíceis.

- A Sofia é muito preocupada com os outros

- Não só com as pessoas, mas também com os animais. Magoa-me ver e saber certas coisas e fico triste com as faltas de respeito que o ser humano tem pelos outros e pelo mundo em si.

- A Sofia tem como que uma ‘capa’ misteriosa à sua volta

- A verdade é que não quero que as pessoas se aproximem de mim. Foi esta ‘capa’ que me protegeu ao longo dos anos. A Sofia Aparício é aquilo que cada um imaginar na sua cabeça e não estou preocupada em mudar consoante as opiniões. Não vou fazer com que me achem mais gira se me vêem feia, nem mais simpática se me acham estúpida. A Sofia só se dá a conhecer às pessoas de quem gosta.

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Sente-se uma pessoa realizada?

Muito, quer a nível pessoal quer profissional. Gostava de fazer teatro, mas sei que é difícil. As pessoas não se conseguem abstrair deste corpo, da minha imagem. Dizem-me que as pessoas me acham inatingível e eu acho estranho, pois sou muito simplória.

Alguém de referência na sua vida.

A minha avó materna, a Joana. Para mim, ela engloba a família inteira. Olhar para ela é ver os meus pais, a minha irmã, a minha sobrinha e a minha avó paterna, a Iva.

O que é que a assusta?

A mediocridade e a pobreza de espírito.

O segredo para manter a sua privacidade?

Nunca falo da minha vida privada, pois ninguém tem nada a ver com isso. Depois nunca vou a festas, só às de traba-lho. Essas coisas não me dizem nada.

PERFIL

Sofia Aparício nasceu a 2 de Junho de 1970 em Viana do Castelo, mas com poucos dias de vida foi viver para Angola, terra natal do pai, e ficou lá até aos quatro anos de idade. É solteira e diz que vai sê-lo o resto da vida. Filhos, pretende tê-los quando tiver uma vida estável, mas adoptar uma criança é um projecto, ou melhor, um sonho.

Fonte:CM

 

 

 

 

Entrevista selecções do readers digest

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Anabela Mota Ribeiro


 

 


 

Sofia Aparício «Gosto muito de pessoas; odeio gente.»


 

Sofia Aparício, 34 anos, top model. Quem é ela? «Sou neta das minhas avós, filha do meu pai e da minha mãe, e não passo disso. Sempre disse que a Sofia Aparício é o que cada um fizer na sua cabeça.»


 

Estúpida, ela? «Quanto mais estúpida pensam que sou, mais vantagem me dão».


 

Para esta entrevista, aninhou-se sobre si, descalça e sem maquilhagem; revelou-se tanto quanto a sua natureza tímida lho permite


 

 


 

Selecções do Reader`s Digest - Em circunstâncias não-profissionais de que assuntos gosta de falar?


 

Sofia Aparício - Sou pouco faladora.


 

SRD - Todavia, consegue perceber constantes, temas recorrentes das suas conversas?


 

SP - Empolgam-me as conversas cujo tema são os direitos. Das pessoas, dos animais. Mas não são necessariamente as conversas que gosto de ter. Porque me emociono.


 

SRD - Isso eu já sabia de si: que não é muito faladora e que, a despeito de uma enorme sensibilidade, evita revelar comoção. O que eu não sei é porquê.


 

SP - Porque sou sozinha no Mundo e tenho que me defender. Tenho uma profissão, desde muito nova, em que sou agredida de várias formas. Não me estou a queixar, de maneira nenhuma, gostei da vida que tive e faria tudo igual. Mas a verdade é que, teenager ainda, me vi confrontada com o mundo das pessoas crescidas.


 

SRD - Sentia que os adultos invadiam um espaço que era ainda de descoberta?


 

SP - Falhei uma fase de crescimento. Aquela em que as pessoas vão para praia, de férias, com os amigos. A adolescência, saltei-a. Comecei a trabalhar, comecei a ganhar dinheiro para ser independente, e isso é viciante. Faço tudo pela minha liberdade. Abdiquei da minha adolescência para ser mais livre. Os meus pais deram-me bases e não correu mal – podia ter corrido... Entrei num mundo agressivo, é preciso ter uma estrutura forte para não descarrilar.


 

SRD - Explique-me melhor o que é que pode ser tão agressivo.


 

SP - Pode ser agressivo ser tratada aos 15 anos como uma mulher adulta. Se somos assediadas aos 22, 23, sabemos defender-nos. Aos 15 anos pensamos: «O que é que me está a acontecer, quem são estas pessoas, porque é que me tratam assim?». Aos 15 anos tive que me defender como uma mulher adulta. Fui ficando, assim, cada vez mais defensiva, protegendo-me.


 

SRD - É o que se pode chamar uma menina de boas famílias: a sua mãe é médica, o seu pai engenheiro. Por que é que foi tão importante conquistar cedo uma independência financeira?
SP - Os meus pais só tinham que me dar bases para me aguentar na vida. Os meus pais casaram-se cá em Portugal, não tinham muito dinheiro, foram para Angola. Ficaram muito bem na vida. Tínhamos uma vida óptima, lá.


 

SRD - Viveu em África até aos 4 anos. Regressaram com o 25 de Abril…
SP - Sim. Entretanto, os meus pais ficaram sem nada, como toda a gente, e hoje em dia vivem outra vez muito bem.


 

SRD - O que recorda desse período, quer de África, quer da transição?


 

SP - Lembro-me perfeitamente da minha casa. Lembro-me de estar debaixo das escadas com a Laura, a senhora que me criou, quando havia tiroteio, de não ter medo nenhum. Lembro-me de um macaco do vizinho. Lembro-me de um senhor que não tinha a unha do polegar. Lembro-me de chegar ao colo de uma amiga dos meus pais à quinta da minha avó.


 

SRD - Em Viana do Castelo?


 

SP - Numa aldeia ao pé de Viana. Tenho recordações óptimas da minha infância em Viana do Castelo. Fiquei com a minha avó até aos 8 anos. A minha irmã ficou num colégio interno no Porto. A minha mãe, que é óptima médica, ficou logo na Estefânia, e o meu pai ficou uns anos em Viseu. Só depois nos juntámos todos.


 

SRD - Apesar da dispersão geográfica o espírito de família manteve-se?
SP - Acho que sim. Os meus educadores foram os meus pais e as minhas duas avós. Os meus pais são pessoas muito fortes, tenho por eles uma admiração que não cabe dentro de mim. O que eles já passaram, o que eles conseguiram, é impressionante. As minhas avós, por serem mais antigas, deram-me valores muito fortes. É por eles que me rejo hoje em dia.


 

SRD - Aponte um.


 

SP - A minha avó, que era uma senhora da aldeia, era das pessoas mais justas que já conheci. Levava uma quinta para a frente, nunca a vi gritar com ninguém, nunca a vi maltratar ninguém e toda a gente fazia tudo o que ela pedia. Porque era realmente boa. Ensinou-me sobretudo a não fazer mal aos outros. Ensinou-me, enfim, as coisas básicas e óbvias que toda a gente sabe que estão certas e nem sempre põem em prática...


 

SRD - Em si foram bem inculcadas, e por isso é tão sensível à defesa dos direitos.


 

SP - Talvez. Às vezes sou demasiado escrupulosa. Em certas coisas podia ser mais flexível...


 

SRD - Estávamos a tentar perceber porque é que uma rapariga de boas famílias quer ter a sua independência financeira tão cedo.


 

SP - Acho que isso não tem explicação. Sou assim. Ainda hoje, é muito importante ser eu a comprar a minha casa, as coisas que quero para minha casa.


 

SRD - Vamos pôr a seguinte situação: de repente fica um bocado aflita de dinheiro... Teria coragem para pedir aos seus pais?


 

SP - À minha irmã, primeiro, talvez. Os meus pais deram-me o mais importante, não quero que se preocupem comigo. Não acho que os decepcionasse. Eles sabem quando tenho menos dinheiro, mas também sabem como sou. Sei que estão lá, e isso é um conforto muitíssimo bom. Mas conto comigo. Sinto-me melhor, cresço melhor se passar algumas dificuldades. Saí de casa com 19, 20 anos; ao longo deste tempo nem sempre tive dinheiro suficiente. Já vivi numa pensão!, e gostei. Se tivesse pedido dinheiro aos meus pais, não tinha formado o meu carácter desta maneira.


 

SRD - Começou muito cedo: a fotografar aos 13 e a desfilar aos 15. Mas a carreira de modelo não se prefigurou como projecto de vida. Foi, inclusive, estudar Gestão.


 

SP - Eu não fazia ideia daquilo que queria ser. Sabia que não queria ser gestora, mas era boa aluna a matemática. Pelo menos tentei, pelos meus pais e por mim, mas não era o que queria fazer. Estava a trabalhar bastante como manequim e nem sequer gostava muito. Porém, quando quis sair da casa dos meus pais e tive que me fazer à vida, pagavam-me mais para ser manequim do que outra coisa qualquer. Pensei que já que tinha de fazer, o faria da melhor maneira possível, e acabei por gostar muitíssimo.


 

SRD - Não era estimulante porque não requeria um esforço extraordinário. A ferramenta base já a tinha: um corpo com as medidas certas e uma cara bonita.


 

SP - Não. Eu nasci muito torta e muito gorda. Não era aquela miúda para quem se olha e se diz: “Vai ser manequim”. E foi isso que me safou. Tive que trabalhar muito mais do que as outras para ser melhor do que as outras!


 

SRD - Foi o costureiro José Carlos, de quem a sua mãe era cliente, que a descobriu como potencial manequim. Quando olha para essas primeiras fotografias, o que é que sente?


 

SP - Olho para todas as minhas fotografias como sendo trabalho. Obviamente odeio todas as fotografias dos 13 anos, anos 80, pirosas, pirosíssimas! A única estranheza é essa.


 

SRD - Ainda se reconhece? O que é que mudou?


 

SP - A minha cara mudou muitíssimo, mudou a expressão, mudaram até os contornos. Os meus olhos não. A cara mudou por ter emagrecido e por tudo o que passei nesses anos. Acredito mesmo que o que somos por dentro se vê por fora.


 

SRD - O cabelo parece ser uma expressão de tudo o que viveu: sofreu mil e uma transformações, acompanhou as suas convulsões, e agora, apaziguada, voltou à cor natural, castanho escuro.


 

SP - Fui mudando... Nenhuma das coisas que fiz ao cabelo me ficaram mal porque fiz exactamente o que queria, na altura em que queria. Era, sim, uma expressão do que sentia. É meio caminho andado para as coisas funcionarem. Se formos induzidos, ficamos sem certezas e não fazemos tão bem. Gosto muito de mudar, preciso muito de mudar. Tudo. Preciso de mudar tudo na minha vida várias vezes.


 

SRD - É ansiosa?


 

SP - Sou um poço de contradições. Estas mudanças funcionaram como estímulo, fizeram-me gostar de ser manequim. Gosto de fazer bonecos, de brincar com a minha imagem. Nunca me vi bonita, nunca me olhei ao espelho e me achei bonita.


 

SRD - Nunca?


 

SP - Nunca. Não me faz infeliz não me achar bonita porque não sou uma má pessoa. A única coisa que quero na vida é ser uma boa pessoa.


 

SRD - Quando toma consciência do seu poder erótico instala-se a dúvida? «O que é que esta pessoa pretende de mim? Será que gosta mesmo de mim ou gosta da Sofia Aparício? Quer-me a mim ou quer o objecto de consumo desejado pelo país inteiro?»


 

SP - Por isso é que digo que tive que crescer muito depressa!, que falhei a fase da adolescência. Confrontei-me com esse tipo de situações, que hoje são muito fáceis de deslindar...


 

SRD - Consegue perceber rapidamente?


 

SP - Sim, até porque não me dou a conhecer como Sofia a muita gente, muito menos à primeira ou à segunda. Demoro. Essa dúvida existiu muitas vezes. Mas também é verdade que nunca lhe dei muita importância.


 

SRD - Em que termos se instalava a dúvida? «Quem é que sou realmente? O que é esperam de mim?»


 

SP - Quem sou realmente, acho que sei, que sempre soube. Sou neta das minhas avós, filha do meu pai e da minha mãe, e não passo disso. Sempre disse que a Sofia Aparício é o que cada um fizer na sua cabeça. Gostem ou não gostem, não estou minimamente interessada em mudar a opinião que têm de mim. Vê um carro num anúncio e gosta ou não gosta, é uma imagem de que gosta ou não gosta. A Sofia Aparício foi isso.


 

SRD - Uma ficção, no sentido em que cada um se apodera daquilo e faz daquilo o que quiser.


 

 SP - Essas pessoas não entram na minha vida! Faço questão que não entrem, mesmo que me dê com elas e que vá gravitando à volta delas. Deixo-as pensar o que quiserem.


 

SRD - Aprendeu a defender-se nesse exercício. É um jogo: representa o papel da tonta, deixa que pensem que é estúpida.
SP - Acham que sou estúpida, que não estou a perceber..., mas estou a perceber! Quanto mais estúpida pensam que sou, mais vantagem me dão; quando quiser, dou a volta à situação. Não quero com isto dizer que sou uma inteligência... Pelo menos, não sou fútil.


 

SRD - Tem uma grande sensibilidade para as artes, sobretudo as plásticas e as performativas.


 

SP - Adorava ter o curso de História de Arte. Em vez de ter ido para Gestão, se tivesse ido para História de Arte, tinha-o acabado.


 

SRD - Desde há alguns anos, tem participado em peças de teatro. Desaguou naturalmente na representação?


 

SP - Sabe, quando comecei a pensar nisso, o que me pediam era para ser uma jarra de flores, um objecto bonito em palco. E fui... não aceitando. É muito difícil fazermos bem o que sempre quisemos fazer. Fazer bem o que não quisemos fazer é fácil – não há o risco da desilusão. Fui manequim da melhor maneira que me foi possível; mas se não tivesse sido tão boa, não me frustrava porque não era uma coisa que me interessasse muito.


 

SRD - Era um modo de vida, como se dizia à antiga.


 

 SP - Exactamente. Ser actriz mete-me medo. Gosto mesmo muito de representar. Sofro imenso. Nas últimas peças fiz mulheres sofridas; na última, então, chorava todas as noites! E chorava realmente. Era difícil parar, nos agradecimentos continuava a chorar. Mas é um prazer enorme e um privilégio ter a oportunidade de viver vidas e sentir coisas que na minha vida nunca sentiria. E dá-me cor como pessoa. Como manequim, não me custa nada fazer um desfile horrível, num sítio horrível: é o meu trabalho.


 

SRD - Ser modelo era um modo de vida. E o projecto de vida?


 

SP - Nesta fase da vida, não sei. O ideal era ser actriz. Gostava de fazer teatro, cinema, até telenovelas – é uma escola diferente.


 

SRD - Nunca pensou numa coisa radicalmente diferente, como estudar História de Arte e depois viver disso, ter uma existência completamente nova?


 

SP - Gostava muito, mas tinha que ter alguém que me sustentasse. Preciso de pagar a renda da casa.


 

SRD - Fica um bocadinho prisioneira...


 

SP - Da minha liberdade? Imenso.


 

SRD - Quando falava em projecto de vida, pensava não só no trabalho, mas naquilo que marca uma vida; como ser filha de, neta de, mãe de. Quando pensa nestes termos estruturais, em que é que pensa?


 

SP - Penso sempre a minha vida sozinha.


 

SRD - Tem medo de quê?


 

SP - Não acho que seja ter medo. Mesmo que arranje uma pessoa, que andemos lado a lado, preciso de ter uma vida própria, de me sentir realizada a nível profissional e pessoal. Adoro crianças, mas um filho é uma responsabilidade muito grande. Um filho precisa de um pai, um bom pai. E nunca me apareceu ninguém na vida que pudesse sê-lo.


 

SRD - Que conversas é que tem com o seu pai? Falam de quê?


 

SP - Sei lá!, de tudo. Acho que por ter um pai tão bom ainda não consegui arranjar um pai para o meu filho. O meu pai abdicou de si por nós. Se não fossemos nós (a minha mãe, a minha irmã e eu), teria ficado em África e feito outra vida. Às vezes temos conversas sérias. Por exemplo, ele odeia que eu tenha piercings. Ralha-me ainda, tenho 34 anos, e mostra-me artigos das Selecções que dizem que os piercings fazem mal!


 

SRD - A revista Selecções corresponde a uma memória antiga?


 

SP - Na quinta há uma parede forrada com revistas das Selecções. Há uns anos peguei nas mais antigas e são lindas!, as ilustrações, os textos...


 

SRD - A revista Selecções reporta-a a um tempo de infância, um tempo de protecção, um tempo de inocência. É isso?


 

SP - É. Vim para Lisboa aos 8 anos e foi aí que comecei a perder a inocência. A quinta tinha os portões abertos, podia andar por todo o lado, completamente livre, toda a gente me conhecia na aldeia, era «a menina». Depois vim para um apartamento, para uma escola pública, foi tudo tão diferente.


 

SRD - Teve de aprender a sobreviver. Ainda lhe sobra inocência?


 

SP - Não faço ideia.


 

SRD - Ainda se consegue maravilhar, deslumbrar, entregar genuinamente a uma coisa?


 

SP - Isso sim. Ainda me sinto maravilhada, por pequeninas que sejam as coisas.


 

SRD - Por exemplo.


 

SP - A minha sobrinha, que tem 11 anos e é linda. A vista sobre o rio que tenho de minha casa.


 

SRD - Mas, que coisas procura realmente? O que é que importa? De que é que não abdica?


 

SP - Por mais cliché que possa ser, dos meus amigos. Os meus amigos mais chegados são a família que escolhi e que me faz muita falta. Não abdico de viajar, mesmo que não tenha dinheiro nenhum; não vou de avião, vou de carro! Não abdico de mim, acima de tudo.


 

SRD - Como é o seu dia típico: acorda a que horas, faz o quê?


 

SP - Desde que acabei a peça, em Junho, é: acordar às 9, 9.30, nadar, organizar o meu dia. Se tenho trabalhos marcados, faço-os, ou aproveito para ler e ficar em casa. Sempre que posso, durante a semana, dou um pulo à praia – sei de uma ou duas que nunca têm ninguém. No fundo, passo a vida a fugir das pessoas...


 

SRD - Sente-se sempre observada. É isso que é tão desconfortável? É por isso que foge das pessoas?


 

SP - Nunca tinha pensado nisso assim. Pensava só que não gostava de gente. Gosto muito de pessoas, odeio gente. Mesmo quando vou a uma inauguração, é trabalho, tenho que me vestir à Sofia Aparício.


 

SRD - É uma menina triste.


 

SP - São sempre as coisas que me chamam: menina triste, menina dos olhos tristes. As minhas tristezas são a razão das minhas alegrias. Se nunca tivesse sido triste nunca poderia ter sido tão feliz em alguns momentos.

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