Domingo, 29 de Julho de 2007

Sam the Kid: Não gosto de ser responsável por nada

 

Sam the Kid sobe ao palco no terceiro dia do festival. Aos 28 anos, o jovem de Chelas continua a sentir-se ‘o puto’. O alcance das suas palavras não o preocupa. Rejeita o papel de porta-voz de uma geração e garante que não é “o puro”.

 

 

 Correio Êxito – Crescer em Chelas influenciou a tua música?

- Sam the Kid – Sou uma esponja que absorve tudo à volta. Morasse noutro sitio e o ambiente seria igualmente importante para a minha inspiração.

O bairro foi determinante para escolheres o hip-hop?

– Não é fácil explicar a ligação. Talvez pelas rimas que faço desde as composições da escola e que sempre pareceram acessíveis. Visualmente, os vídeos também tiveram impacto. Depois há o cantar. Eu não sei cantar e outros estilos implicam sabê-lo. Não quer dizer que um gajo do rock saiba automaticamente rappar. Isto tem a sua dificuldade.

O que mudou entre o Sam do culto do bairro e o que vende discos em todo o País?

– Estou mais profissional porque já vivo da música. Prefiro dizer o que não mudou e até já pensei em fazer um tema sobre isso. Tenho 28 anos e continuo a não ter responsabilidades. É isso que marca o Kid. Continuo em casa, não tenho mulher, filhos, nem sequer carro.

Vais ser sempre o Kid?

– Claro. É só um nome e não faz sentido trocar só por me sentir mais adulto. O António Feio não vai mudar de nome se um dia ficar bonito.

Sentes-te um porta-voz da juventude portuguesa?

– Isso remete outra vez para a responsabilidade, e eu não gosto de ser responsável por nada. O maior privilégio que tenho é ser livre para fazer o que quero. Mas percebo que possa haver essa interpretação e tento não entrar numa onda de pregador.

Foi estranho ir ao ‘Prós & Contras’ da RTP 1?

– Foi um engano. Estava entre senhores com escola Fidel Castro... Eu não tenho esse dom para discursar e não podia estar a argumentar com eles.

A política interessa-te?

– Acompanho nos noticiários, mas os políticos não me interessam nada.

E continuas sem votar?

– Sim, mas gostava de o fazer e até me dizem “vota em branco que o voto é um acto valioso”. Não! Se é valioso, não vou à urna só para mostrar que os políticos não me interessam. Eles não merecem esse trabalho.

A tua frontalidade é uma virtude ou defeito?

– Ambas, mas mais virtude. O problema está em quem recebe a mensagem: se for mais sensível pode ficar afectado. Às vezes também me arrependo, porque a espontaneidade leva-me a ser frio na forma como falo.

Assumiste no Amigos do Live Earth que não reciclas...

– E não me arrependo. A organização também não me perguntou isso quando me convidou. Sinceramente, nem gostei muito de lá ir. Banda entra, banda sai, o som também não estava nada de especial...

Então porque é que lá foste?

– Honestamente, não foi pela causa, porque tinha ido se fosse outra qualquer. Motivou-me a cena do Atlântico, onde nunca tinha estado, e achei aliciante a associação a um evento mundial. A data também foi importante porque o 7 é o meu número.

O ambiente não te preocupa?

– Não é isso. É mais o hábito português de só nos preocuparmos quando algo nos atinge. Uso preservativo por medo de engravidar alguém, mas nunca penso na SIDA porque não conheço ninguém infectado.

Continuas a ver a música como uma terapia?

– Sempre. Gosto de escrever sobre algo que tenha necessidade de dizer. Aliás, odeio sentir que não tenho nada para dizer. Claro que às vezes inspiro-me nos amigos, mas, essencialmente, as rimas são biográficas.

E não te sentes exposto?

– Não. Só rimo sobre o que me apetece deitar para fora. Uma amiga propôs-me um documentário, mas queria falar com a minha mãe. Recusei.

Farias um álbum sobre miúdas, dinheiro e carros?

– Se fosse a minha cara, fazia na boa. Se gostas da ostentação, das roupas de marca, porquê fingir o oposto? Há espaço para tudo no hip-hop. Importa é ser criativo.

Como é a vida de músico num momento de crise da indústria?

– Olha, o que supostamente equilibraria isto seriam os toques para telemóvel, mas as empresas são trafulhas e eu continuo sem ver o dinheiro. O top de vendas diz que estou em terceiro. Isso significa o quê? Quantos toques são? A Jamba declarou à minha editora 111 toques do ‘Poetas de Karaoke’. O Peter Cooper foi à Associação Fonográfica Portuguesa e diz que estão lá 9700 registados! Imagino as outras empresas licenciadas, já para não falar das que vendem imitações...

A quanto é que terias direito por cada toque?

– 25%. Eles ficam com metade e eu divido o restante com a editora.

Chateia-te mesmo que não se cante em português?

– Não é chatear-me... Não me inspira. E para fazer música, quero ouvir os outros e inspirar-me. Instrumentalmente, até podem consegui-lo, mas liricamente nunca o farão. E eu preocupo-me muito com a oralidade.

De que forma?

– Quando me conhecem costumam dizer: “parece que rima enquanto fala”. O meu objectivo é esse, mas ao contrário: rimar parecendo que falo.

Foste mal interpretado no tema ‘Poetas de Karaoke’?

– Então não fui? A situação com os Moonspell até parte de uma coisa boa que disse. Se alguém quer ser como eles é por serem bons. Eu critico é a cópia em si! O engraçado é que comecei por levar da malta do metal e depois veio o pessoal do hip-hop que canta em crioulo. Mas nunca quis dizer ‘façam todos como eu’. Por isso compreendo as reacções. Não sou, nem quero ser, o puro.

O inglês é um caminho para a internacionalização?

– Não sei, porque não tenho essa experiência. Acho é que és menos especial e acabas por não sobressair.

E gostas de karaoke?

– Não. (risos) Voltando ao tema: eu queria celebrar o facto de o hip-hop estar em alta e de o cantar em português ser uma das causas para isso. Ainda por cima quando somos acusados de fazer uma cena americana.

Ainda achas que os teus instrumentais são mais adultos que as tuas rimas?

– É uma questão de realidades. Daqui a 15 anos se escrever sobre filhos os mais novos vão perguntar: ‘que é isto, pá?’. Era nesse sentido da que falava. Se rimo sobre o que se passa à minha volta, é natural que alguém com 40 anos possa gostar das batidas mas achar as letras imaturas.

Preferes o disco ou o palco?

– Sou o contrário do artista que diz ter nascido para estar no palco. Prefiro o estúdio. Não me importo de dar a cara mas, no fundo, faço mais sentido nos bastidores.

E dá-te mais gozo pesquisar sons ou montar os beats?

– Curto tudo no processo de criação e produção. Mas atenção: não recuso a arte dos concertos, onde quero melhorar e criar uma marca que inspire os outros. A fasquia dos concertos hip-hop tem que ser elevada.

De que forma?

– Ando a tentar descobrir. As pessoas têm que sair a falar do que viram. Detesto sentir o piloto automático e estar sempre a repetir o alinhamento. E tento fugir a clichés como o encore. Acho palerma guardar um hit para o regresso ao palco.

Como procuras os samples?

– De todas as formas. Não sou purista, nem acho fundamental ir à loja picar vinil. Uso muito a internet.

Não és um ladrão de ideias?

– Claro que não. O instrumentista também se inspira em terceiros e até é capaz de tocar muito mais próximo da sua influência do que eu ao cortar, fragmentar e moldar um beat.

Tens tido problemas com os direitos de autor?

– Só quando fui processado pelo Tozé Brito em nome do Vítor Espadinha. Mas já ouvi o Vítor dizer que não me queria levar a tribunal. O Tozé Brito é um advogado recente e quis treinar comigo o que aprendeu.

Tens algum gosto especial em samplar artistas portugueses?

– É-me indiferente. Tenho é pena de não encontrar certas referências na música portuguesa, como a soul. Já falei com músicos mais velhos e sei que eles gostavam mas tinham medo da acusação de imitar os americanos. Mas depois acabaram por imitar a escola francesa.

Já pensaste fazer um disco noutro estilo?

– Tenho participado em coisas diferentes, mas o hip-hop tem que ser sempre a base do meu som. Gostava era de dar um concerto puramente instrumental. Outra ideia que tive, agora que estou a colaborar no novo disco do Jorge Fernando, é actuar com músicos de fado.

PERFIL

Samuel Mira nasceu a 17 de Julho de 1979 em Lisboa. Diz que o número da sorte é o 7 e tatuou-o em caracter chinês no braço esquerdo. Nunca saiu de casa da mãe e, até ver, não tem essa ambição. Descobriu o hip-hop aos 13 anos e nunca mais o largou. Além da música, é apaixonado pelos audiovisuais. Quando completou o Ensino Básico seguiu um curso técnico nessa área, mas acabou por desistir assim que sentiu ter as bases necessárias. Gostava de ser realizador. É sportinguista, mas sem fanatismos.

QUEM É O ROGÉRIO BARBOSA?

Notícias recentes deram conta da detenção de um elemento do teu grupo por assaltos a carrinhas de valores...

– Essas notícias não são verdadeiras. Li com atenção e falam de um tal de Rogério Barbosa, mas eu não conheço ninguém com esse nome.

O apelido do GQ – um dos vocalistas do colectivo que te acompanha – não é Barbosa?

– Sim, mas não tem esse primeiro nome. Quem é o Rogério Barbosa? Não conheço.

Chateia-te a associação que ainda se vai fazendo entre a cultura do hip-hop e o mundo da criminalidade?

– Chateia mas já me habituei. Por mais que tentes limpar a imagem do hip-hop já sabes que essa associação vai continuar a ser feita. Não é muito diferente da associação que sempre se fez entre o satanismo e a malta do metal, por exemplo.

Em Chelas convive-se diariamente com a criminalidade ou isso é apenas um preconceito antigo de quem não conhece o bairro?

– Isso do convívio com a criminalidade depende sempre das pessoas com quem andares. Eu pessoalmente dou-me com pessoas de todos os estilos: actores, músicos, desempregados, malta que está presa... Mas são todas pessoas. Não é por fazeres algo mau a certa altura que te transformas logo numa pessoa má. Agora, se é verdade que existe um preconceito em relação a Chelas, não se pode negar que existe um fundo de verdade, porque há bandidos a morar cá. A grande mentira é insinuar-se que alguém que passe por aqui é automaticamente roubado. Nunca vi isso acontecer.

As aparências iludem?

– Então não? Estamos sempre a ouvir histórias sobre alguém que “parecia ser tão boa pessoa” e acaba por se revelar bem pior que aqueles que são sempre olhados de lado.

CM

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